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Os 15 pares da sapateira da entrada

Cada par calçado por dez segundos de pé, o inteiro no posto de doação da escola e o descolado no lixo.

Pessoa de pé no tapete da entrada provando um sapato, com a sapateira aberta ao lado.

Dez segundos de pé, com a meia de todo dia

▼
 

Abra a sapateira da entrada e conte os pares. A conta raramente bate com o que a família calça na semana. Saem sempre os mesmos três ou quatro: o tênis da academia, o chinelo de casa, o sapato do trabalho. O resto fica empilhado no escuro, com o bico encostado na parede.

Lá no fundo mora o mocassim comprado um número abaixo porque estava em promoção, a sandália que fez bolha no casamento da prima, o tênis de corrida com o solado liso feito sabonete e a bota que perdeu o salto numa calçada molhada. Tem ainda o sapatinho do caçula, que hoje calça dois números acima.

A sapateira cheia cobra caro. A porta não fecha, o par de uso diário fica no chão do corredor e alguém tropeça nele à noite. O cheiro de couro abafado sobe pela sala nos dias de chuva, e o sapato bom divide a prateleira com o mofo do sapato esquecido.

Ninguém se desfaz do par que aperta por um motivo simples: ele parece novo. A sola está inteira, o couro brilha, o preço ainda dói na memória. A promessa de que ele vai lacear (ceder e alargar com o uso) segura o par na prateleira por anos.

O solado gasto engana de outro jeito. Visto de cima, o tênis parece ótimo. Só quem vira o par de cabeça pra baixo enxerga o calcanhar comido de lado e a borracha lisa que escorrega no piso do banheiro.

A tarefa de hoje leva quinze minutos e pede pouco: um banco perto da porta, as meias de uso comum e duas sacolas, uma pra doação e outra pro lixo. Tire todos os pares da sapateira e enfileire no tapete da entrada, do mais usado ao mais esquecido.

Deixe a prova pra depois das cinco da tarde. A primeira seção explica por que o relógio pesa tanto quanto o número gravado na palmilha.

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I  O Quinze do Dia

O pé das cinco da tarde

Em 1925, o americano Charles F. Brannock, filho de um dono de sapataria em Syracuse, no estado de Nova York, terminou o protótipo de uma placa de metal com escalas deslizantes que mede o comprimento e a largura do pé ao mesmo tempo. O aparelho ganhou o sobrenome dele, Brannock Device (medidor Brannock), e segue no balcão de muita loja de calçado nos Estados Unidos.

A invenção resolveu uma confusão antiga: um único número de etiqueta servia a pés de larguras muito diferentes. Brannock mostrou que o pé tem duas medidas, e o calçado precisa respeitar as duas. Sapato com comprimento certo e largura errada aperta tanto quanto o sapato curto.

O pé também muda ao longo do dia. Horas de pé ou sentado fazem o líquido do corpo descer pelas pernas por gravidade, e o pé incha um pouco até a noite. Daí a regra antiga dos vendedores de calçado: provar sapato à tarde, quando o pé está no tamanho maior.

Com os anos, o pé ganha largura e comprimento. Os ligamentos que seguram o arco (a curva da sola do pé) afrouxam, e o pé se espalha no chão. A gravidez costuma alargar o pé de forma permanente. O par que servia há cinco anos pode ter ficado pequeno sem culpa de ninguém.

E o laceamento tem limite. Couro cede um pouco na largura com o calor do pé; sintético e verniz quase não cedem, e nenhum material ganha comprimento. Dedo que encosta na ponta continua encostando, por mais que o par seja usado.

A PROVA DOS DEZ SEGUNDOS

Sente no banco, calce o par com a meia de costume e fique de pé, peso distribuído nos dois pés. Conte até dez parado, sem andar.

Nesses dez segundos, o pé se acomoda e mostra o que o espelho esconde. Aperto no dedinho, calcanhar que sobe, peito do pé pressionado pela tira ou dedão tocando a ponta reprovam o par.

Sapato que aperta parado por dez segundos aperta o dia inteiro.

Faça a prova com os dois pés, nunca com um só. Quase todo mundo tem um pé um pouco maior, e o par é julgado pelo pé maior: se o direito aperta e o esquerdo folga, o sapato aperta.

Para o comprimento, aperte a ponta com o polegar. Entre o dedão e o bico deve caber a largura de um dedo da mão. Sem essa folga, o pé bate na frente a cada passo de descida e a unha escurece.

1

Banco e meia: calce como no dia a dia.

2

Dez segundos de pé: parado, peso nos dois pés.

3

Polegar na ponta: um dedo de folga, ou sai.

 
 

II  Antes e Depois

Três montes no tapete

Faça a prova par por par, sem pular nenhum, e vá formando três montes no tapete: o que serve, o que aperta e o que está gasto. O sapato do caçula entra na conta pelo pé dele, nunca pelo apego de quem comprou.

Agora vire cada par aprovado de cabeça pra baixo. O desgaste do solado conta como a pessoa anda. Calcanhar comido só na borda de fora é comum; o problema começa quando a borracha some e aparece a camada de espuma por baixo.

Faça o teste da torção: segure o tênis pelas pontas e torça como quem torce um pano. Tênis cansado gira fácil no meio, sem resistência, e deixa o tornozelo sem apoio. Aperte também a entressola (a camada de espuma entre a palmilha e a borracha): se ela ficou cheia de vincos fundos que não voltam, o amortecimento acabou.

Repare no desenho da sola. Borracha lisa, sem os sulcos originais, escorrega em cerâmica molhada, e o banheiro e a calçada em dia de chuva viram armadilha. Par aprovado no aperto e reprovado no solado vai pro monte dos gastos.

O PAR QUE SE SALVA

Nem todo defeito condena o par. Salto gasto em sapato de couro se troca no sapateiro por pouco dinheiro, e a meia-sola (sola nova colada sobre a antiga) devolve anos a uma bota boa. Tênis de tecido não tem conserto equivalente, porque o solado vem fundido à peça.

“Desconfie de todo empreendimento que exija roupas novas.”

Henry David Thoreau, Walden, 1854.

Thoreau escreveu a frase no livro sobre os dois anos que viveu numa cabana à beira do lago Walden, em Massachusetts. Ele desconfiava da compra feita antes da necessidade, e a sapateira cheia de pares novos que apertam guarda justamente a compra pensada pra uma ocasião, e não pro pé.

O sapato fica pelo pé de hoje, nunca pela promessa de lacear.

Guarde os aprovados com a ponta pra frente, um par ao lado do outro, sem empilhar. O de uso diário vai na prateleira da altura da mão, e o de festa sobe pro alto.

Antes: quinze pares empilhados, a porta da sapateira encostada, o tênis do dia largado no corredor. Depois: seis pares em fila, cada um calçando sem dor, e a porta fechando com um clique.

 

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III  O Saco de Doação

A caixa no portão da escola

Sobraram dois montes. O que aperta mas está inteiro tem destino certo: o posto de doação da escola. Muitas escolas mantêm uma caixa de doação na secretaria ou perto do portão, e o sapato escolar, o tênis de educação física e a sandália de festa junina saem rápido de lá.

Antes de levar, ligue pra secretaria e pergunte se a escola recebe calçado adulto ou só infantil. Algumas repassam o adulto pras famílias dos alunos ou pra uma paróquia do bairro; outras aceitam só o tamanho das crianças. Saber antes evita voltar com a sacola cheia.

O CRITÉRIO DO CALÇADO INTEIRO

Doa-se só o par inteiro: os dois pés, sola presa, couro sem rasgo, cadarço no lugar. Sapato que você não daria a um sobrinho não vai pra doação.

Prepare cada par antes de ensacar. Escove a terra da sola, passe um pano úmido por fora e deixe secar à sombra. Prenda os dois pés juntos com um elástico ou amarre os cadarços um no outro, porque par solto se separa na triagem e vira dois pés órfãos.

1

Limpe a sola: escova seca, pano úmido por fora.

2

Una o par: elástico ou cadarços amarrados.

3

Feche a sacola: etiqueta com o tamanho e a palavra doação.

O descolado segue outro caminho. Sola que abriu como boca na ponta, salto solto, palmilha esfarelando: o par vai pro lixo comum, ensacado à parte. Calçado mistura couro, borracha, cola e tecido, e a coleta seletiva comum não consegue separar as camadas.

Chinelo de borracha rachado e sandália com tira arrebentada vão pelo mesmo caminho do descolado. Na escola, ninguém tem tempo de consertar par quebrado, e a peça ocupa o lugar de um sapato bom na caixa.

Algumas fabricantes e lojas de tênis mantêm urna de recolhimento pra calçado usado; vale perguntar na loja onde você comprar o próximo par. Sem um ponto assim perto de casa, o lixo comum é o destino honesto.

Par inteiro vai pra escola; sola descolada vai pro lixo, nunca pra caixa de doação.

Pendure a sacola de doação na maçaneta da porta de entrada, onde ela não tem como ser esquecida, e leve na próxima ida à escola, de manhã. A sapateira volta a fechar, e o par que você calça amanhã está na frente, no primeiro lugar da prateleira.

“Quantos pares da sua sapateira passam nos dez segundos de pé sem apertar?”

 
 
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